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O Sal

Se o amor fosse tempero

Seria o sal

No exagero, o repúdio

Na falta, a avidez

Na medida certa

O sabor

A moeda

A saliva

A troca

Íntimo

Fora de mim

Adentro-me

Sou mais eu

Que eu mesmo

OFF ROAD

Olho para os meus pés

E imagino a próxima caminhada

Pelo vale desconhecido

Já calejado das pedras e dos deslizes

Depois de atravessar rios e enfrentar correntezas

Chega a hora de construir uma trilha

Planejada por mim e pelo acaso

Que me levará ao lugar incomum

Da satisfação.

Das pedradas ando cheio de marcas

Dos deslizamentos, cheio de lama

Quero purificar-me com a água salgada

Do mar e da rainha

Pôr as imagens em P&B no porta-cicatrizes

E fazer papéis de parede com as cores da saudade,

Revestindo minha existência de retratos

Nem sempre agradáveis.

 Olho para as minhas mãos

E penso nas próximas palavras.

O Bote

Num bote reúno peixes por letra

Que pesco sem linha

E faço da isca o significado

Para confundir os pescadores de palavra

Que criam um oceano

De interpretações

Oblíquo e pessoal

Se a ordem é no imperativo

O subjuntivo se impõe

Condicionando adjetivos e sujeitos

Com predicados duvidosos

E pronomes apenas pessoais.

Silhueta

O frio na barriga se espalha pelo corpo
As mãos desorientadas e trêmulas
Inquietas em busca das teclas erradas
Para não expor a angústia
Que percorre meu corpo
Um calor por fora
Um frio por dentro
Suo fácil e sinto medo
Do que?
Não sei.
Sei que sinto.
Algo me corroi, moi, tritura, esmaga a confiança
Consumindo, estraçalhando, desfiando
Cada palavra, gesto
Cada possível pensamento sensato
A garganta seca, os olhos úmidos
A cabeça, a pressão alta
A vida passada, sem retorno
Vivida, mas passada
Hoje, o tempo não me quer mais
Ele passa voando
Enquanto eu caminho
Numa direção que não enxergo
Pra um lugar que não conheço
Sei que é para o interior
Longe, bem longe
Reside minh’alma
Fluida, leve
Livre das amarguras da vida
Não falo do sentido
Vida não é pra ter sentido
Vida é pra sentir.
Sinto dormência
Uma dor e uma demência
Sem corpo
Só a silhueta de alguém
Que achava que conhecia.

Pensei

Matei-me por uns meses

Matei minha escrita num texto ácido

Que não é literal

Tem verdade

Tem desabafo

Tem hipérbole

Tem indignação

Tem muito de mim, mas não tudo

Reservei-me um tempo

Reservei meus pensamentos num espaço básico

Sem registro exato

Abasteci

Resisti

Desisti

Persisti

Tem muito de mim, mas não tudo

Pensei-me

O DIREITO DE MATAR

Um para cada um Essa é a justiça Vocês têm direitos Bons antecedentes Residência fixa Emprego Família constituída Como se um marginal não pudesse ter nada disso Vocês têm direitos De ficar preso em casa Em meio a grades e muros altos Que te separam dos que exercem o direito Da liberdade e do pode fazer O não dever fazer é babaquice Todo mundo faz, todo mundo sabe A polícia não faz nada A justiça não existe, é minúscula E para poucos Não acredito em deus Nem na justiça divina Nem no homem Acreditava na vida, na alegria No agora e no amanhã Nos meus filhos Agora não creio em nada O nada que existe E está na banalização da violência No direito de fazer o mal E matar um a seu critério Há legítima defesa Pra quem está armado e atira Não há pra quem morre Vamos criar uma campanha “Defenda-se! Mate um” É assim que se acaba com a violência É assim a justiça Pessoas que se acham deuses Poderosos, onipresentes e capazes de falar do bem e do mal Fácil entender a cor das togas É pra lembrar o luto O lamento de homens julgarem homens De acordo com suas conveniências Pra réus agradecerem a juízes E virarem vítimas da sociedade E das circunstâncias psicológicas “Um tirinho só” “Uma facadinha só”. “A prisão é uma fábrica de criminosos” “Ele tem família, é trabalhador” Mas matou Julgo, na minha consciência Que matar é permitido E quem morreu não tem família? E quem morreu é o lixo da sociedade E quem morreu matou? E o pai e a mãe? E a dor de perder de um filho? Será que quem julga faz ideia do que é isso? Não Não faz Tomara que acreditem em deus Eles são os imparciais, donos da verdade absoluta Da doutrina, da ciência humana Onde quem mata está no seu direito E quem sofre tem o dever de aceitar As decisões de quem se julga detentor da sabedoria suprema da vida E da consciência coletiva Transformando morto em réu Assassino em vítima Família em refém Sociedade em medo Justiça em homicídio Pessoas em animais Vida em morte Mais vale a vida de quem mata Que a de quem morre Justiça pra quem? Eu faço a minha Você faça a sua. Individualismo e ética Justiça pra quê? Se cada um faz o que quer? Para o bem do mundo Vamos todos matar um. Reduziríamos a população à metade A economia ia dar um salto Mais empregos Mais dinheiro Mais riqueza Mais espaço Mais luxo Mais idiotas Menos juízes Mais assassinos Menos pessoas Mais competitivo Menos ilusório Mais real e verdadeiro Mais cínico Mais justo impossível Todo mundo tem direito de matar um nesse negócio Chamado Brasil Mas lembre-se que antes de exercer o seu direito: Case, tenha filhos, um emprego, uma residência fixa, faça um curso de tiro (pra se defender, claro) e não cometa nenhum crime até chegar a hora certa de você fazer um bem à sociedade: eliminar um O mundo evoluiu Agora todo mundo tem que plantar uma árvore, ter filho, matar um e escrever um livro Assim, você ainda consegue ganhar algum com o exercício do seu direito Muitos fazem isso todos os dias Quando assassinam famílias inteiras com as decisões que tomam.

O Apagador

Da parede

Ele via um mundo preenchido

Sem espaço

Morto, sem futuro.

À frente,

Nucas empilhadas

Secas, duras, brancas, podres

Pobres de espírito

Momentâneos e passageiros da vida

Com a escrita torta

À espera da borracha divina

E do papel em branco

Com o nó

E as cordas gritando silenciosamente

Por perdão, sem pecado aparente

Pra livrar-se do aperto

Que esmaga o tórax

Ele busca viver, talvez, sem sentir, a realidade

Pra poder libertar

Um coração preso e castigado

Da dor que consome

E entope veias e pensamentos

Atentos só a tristeza

De uma jornada inexplicavelmente

Sem sentido.

Por favor, um apagador.

Canto

Queria ter um canto

Pra chorar minha mágoas

Pra dividir meus olhos

E deixar escorrer

Para lavar entre as rugas

O tempo acumulado

E os resíduos das lágrimas de ontem

Queria ter um canto

Pra ouvir a amargura

Pra dividir a cera endurecida

E deixar espalhar

Entre as orelhas

O silêncio constante

E os pedaços de palavras de ontem.

Queria ter um canto

Pra gritar minha tristeza

Pra multiplicar minhas mãos

E deixar escrever

Entre as linhas

A frase interrogativa

E os fragmentos da vida de ontem.

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