Se o amor fosse tempero
Seria o sal
No exagero, o repúdio
Na falta, a avidez
Na medida certa
O sabor
A moeda
A saliva
A troca
Se o amor fosse tempero
Seria o sal
No exagero, o repúdio
Na falta, a avidez
Na medida certa
O sabor
A moeda
A saliva
A troca
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Fora de mim
Adentro-me
Sou mais eu
Que eu mesmo
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Olho para os meus pés
E imagino a próxima caminhada
Pelo vale desconhecido
Já calejado das pedras e dos deslizes
Depois de atravessar rios e enfrentar correntezas
Chega a hora de construir uma trilha
Planejada por mim e pelo acaso
Que me levará ao lugar incomum
Da satisfação.
Das pedradas ando cheio de marcas
Dos deslizamentos, cheio de lama
Quero purificar-me com a água salgada
Do mar e da rainha
Pôr as imagens em P&B no porta-cicatrizes
E fazer papéis de parede com as cores da saudade,
Revestindo minha existência de retratos
Nem sempre agradáveis.
Olho para as minhas mãos
E penso nas próximas palavras.
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Num bote reúno peixes por letra
Que pesco sem linha
E faço da isca o significado
Para confundir os pescadores de palavra
Que criam um oceano
De interpretações
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Se a ordem é no imperativo
O subjuntivo se impõe
Condicionando adjetivos e sujeitos
Com predicados duvidosos
E pronomes apenas pessoais.
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Matei-me por uns meses
Matei minha escrita num texto ácido
Que não é literal
Tem verdade
Tem desabafo
Tem hipérbole
Tem indignação
Tem muito de mim, mas não tudo
Reservei-me um tempo
Reservei meus pensamentos num espaço básico
Sem registro exato
Abasteci
Resisti
Desisti
Persisti
Tem muito de mim, mas não tudo
Pensei-me
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Um para cada um Essa é a justiça Vocês têm direitos Bons antecedentes Residência fixa Emprego Família constituída Como se um marginal não pudesse ter nada disso Vocês têm direitos De ficar preso em casa Em meio a grades e muros altos Que te separam dos que exercem o direito Da liberdade e do pode fazer O não dever fazer é babaquice Todo mundo faz, todo mundo sabe A polícia não faz nada A justiça não existe, é minúscula E para poucos Não acredito em deus Nem na justiça divina Nem no homem Acreditava na vida, na alegria No agora e no amanhã Nos meus filhos Agora não creio em nada O nada que existe E está na banalização da violência No direito de fazer o mal E matar um a seu critério Há legítima defesa Pra quem está armado e atira Não há pra quem morre Vamos criar uma campanha “Defenda-se! Mate um” É assim que se acaba com a violência É assim a justiça Pessoas que se acham deuses Poderosos, onipresentes e capazes de falar do bem e do mal Fácil entender a cor das togas É pra lembrar o luto O lamento de homens julgarem homens De acordo com suas conveniências Pra réus agradecerem a juízes E virarem vítimas da sociedade E das circunstâncias psicológicas “Um tirinho só” “Uma facadinha só”. “A prisão é uma fábrica de criminosos” “Ele tem família, é trabalhador” Mas matou Julgo, na minha consciência Que matar é permitido E quem morreu não tem família? E quem morreu é o lixo da sociedade E quem morreu matou? E o pai e a mãe? E a dor de perder de um filho? Será que quem julga faz ideia do que é isso? Não Não faz Tomara que acreditem em deus Eles são os imparciais, donos da verdade absoluta Da doutrina, da ciência humana Onde quem mata está no seu direito E quem sofre tem o dever de aceitar As decisões de quem se julga detentor da sabedoria suprema da vida E da consciência coletiva Transformando morto em réu Assassino em vítima Família em refém Sociedade em medo Justiça em homicídio Pessoas em animais Vida em morte Mais vale a vida de quem mata Que a de quem morre Justiça pra quem? Eu faço a minha Você faça a sua. Individualismo e ética Justiça pra quê? Se cada um faz o que quer? Para o bem do mundo Vamos todos matar um. Reduziríamos a população à metade A economia ia dar um salto Mais empregos Mais dinheiro Mais riqueza Mais espaço Mais luxo Mais idiotas Menos juízes Mais assassinos Menos pessoas Mais competitivo Menos ilusório Mais real e verdadeiro Mais cínico Mais justo impossível Todo mundo tem direito de matar um nesse negócio Chamado Brasil Mas lembre-se que antes de exercer o seu direito: Case, tenha filhos, um emprego, uma residência fixa, faça um curso de tiro (pra se defender, claro) e não cometa nenhum crime até chegar a hora certa de você fazer um bem à sociedade: eliminar um O mundo evoluiu Agora todo mundo tem que plantar uma árvore, ter filho, matar um e escrever um livro Assim, você ainda consegue ganhar algum com o exercício do seu direito Muitos fazem isso todos os dias Quando assassinam famílias inteiras com as decisões que tomam.
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Da parede
Ele via um mundo preenchido
Sem espaço
Morto, sem futuro.
À frente,
Nucas empilhadas
Secas, duras, brancas, podres
Pobres de espírito
Momentâneos e passageiros da vida
Com a escrita torta
À espera da borracha divina
E do papel em branco
Com o nó
E as cordas gritando silenciosamente
Por perdão, sem pecado aparente
Pra livrar-se do aperto
Que esmaga o tórax
Ele busca viver, talvez, sem sentir, a realidade
Pra poder libertar
Um coração preso e castigado
Da dor que consome
E entope veias e pensamentos
Atentos só a tristeza
De uma jornada inexplicavelmente
Sem sentido.
Por favor, um apagador.
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Queria ter um canto
Pra chorar minha mágoas
Pra dividir meus olhos
E deixar escorrer
Para lavar entre as rugas
O tempo acumulado
E os resíduos das lágrimas de ontem
Queria ter um canto
Pra ouvir a amargura
Pra dividir a cera endurecida
E deixar espalhar
Entre as orelhas
O silêncio constante
E os pedaços de palavras de ontem.
Queria ter um canto
Pra gritar minha tristeza
Pra multiplicar minhas mãos
E deixar escrever
Entre as linhas
A frase interrogativa
E os fragmentos da vida de ontem.
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