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O DIREITO DE MATAR

Um para cada um Essa é a justiça Vocês têm direitos Bons antecedentes Residência fixa Emprego Família constituída Como se um marginal não pudesse ter nada disso Vocês têm direitos De ficar preso em casa Em meio a grades e muros altos Que te separam dos que exercem o direito Da liberdade e do pode fazer O não dever fazer é babaquice Todo mundo faz, todo mundo sabe A polícia não faz nada A justiça não existe, é minúscula E para poucos Não acredito em deus Nem na justiça divina Nem no homem Acreditava na vida, na alegria No agora e no amanhã Nos meus filhos Agora não creio em nada O nada que existe E está na banalização da violência No direito de fazer o mal E matar um a seu critério Há legítima defesa Pra quem está armado e atira Não há pra quem morre Vamos criar uma campanha “Defenda-se! Mate um” É assim que se acaba com a violência É assim a justiça Pessoas que se acham deuses Poderosos, onipresentes e capazes de falar do bem e do mal Fácil entender a cor das togas É pra lembrar o luto O lamento de homens julgarem homens De acordo com suas conveniências Pra réus agradecerem a juízes E virarem vítimas da sociedade E das circunstâncias psicológicas “Um tirinho só” “Uma facadinha só”. “A prisão é uma fábrica de criminosos” “Ele tem família, é trabalhador” Mas matou Julgo, na minha consciência Que matar é permitido E quem morreu não tem família? E quem morreu é o lixo da sociedade E quem morreu matou? E o pai e a mãe? E a dor de perder de um filho? Será que quem julga faz ideia do que é isso? Não Não faz Tomara que acreditem em deus Eles são os imparciais, donos da verdade absoluta Da doutrina, da ciência humana Onde quem mata está no seu direito E quem sofre tem o dever de aceitar As decisões de quem se julga detentor da sabedoria suprema da vida E da consciência coletiva Transformando morto em réu Assassino em vítima Família em refém Sociedade em medo Justiça em homicídio Pessoas em animais Vida em morte Mais vale a vida de quem mata Que a de quem morre Justiça pra quem? Eu faço a minha Você faça a sua. Individualismo e ética Justiça pra quê? Se cada um faz o que quer? Para o bem do mundo Vamos todos matar um. Reduziríamos a população à metade A economia ia dar um salto Mais empregos Mais dinheiro Mais riqueza Mais espaço Mais luxo Mais idiotas Menos juízes Mais assassinos Menos pessoas Mais competitivo Menos ilusório Mais real e verdadeiro Mais cínico Mais justo impossível Todo mundo tem direito de matar um nesse negócio Chamado Brasil Mas lembre-se que antes de exercer o seu direito: Case, tenha filhos, um emprego, uma residência fixa, faça um curso de tiro (pra se defender, claro) e não cometa nenhum crime até chegar a hora certa de você fazer um bem à sociedade: eliminar um O mundo evoluiu Agora todo mundo tem que plantar uma árvore, ter filho, matar um e escrever um livro Assim, você ainda consegue ganhar algum com o exercício do seu direito Muitos fazem isso todos os dias Quando assassinam famílias inteiras com as decisões que tomam.

O Apagador

Da parede

Ele via um mundo preenchido

Sem espaço

Morto, sem futuro.

À frente,

Nucas empilhadas

Secas, duras, brancas, podres

Pobres de espírito

Momentâneos e passageiros da vida

Com a escrita torta

À espera da borracha divina

E do papel em branco

Com o nó

E as cordas gritando silenciosamente

Por perdão, sem pecado aparente

Pra livrar-se do aperto

Que esmaga o tórax

Ele busca viver, talvez, sem sentir, a realidade

Pra poder libertar

Um coração preso e castigado

Da dor que consome

E entope veias e pensamentos

Atentos só a tristeza

De uma jornada inexplicavelmente

Sem sentido.

Por favor, um apagador.

Canto

Queria ter um canto

Pra chorar minha mágoas

Pra dividir meus olhos

E deixar escorrer

Para lavar entre as rugas

O tempo acumulado

E os resíduos das lágrimas de ontem

Queria ter um canto

Pra ouvir a amargura

Pra dividir a cera endurecida

E deixar espalhar

Entre as orelhas

O silêncio constante

E os pedaços de palavras de ontem.

Queria ter um canto

Pra gritar minha tristeza

Pra multiplicar minhas mãos

E deixar escrever

Entre as linhas

A frase interrogativa

E os fragmentos da vida de ontem.

Ah!

Não hei de ver os pedaços de mim
Espalhados pelo chão frio da ganância
Não hei de ver meus cacos de orgulho
Espalhados pela varanda deserta da hipocrisia
Hei de ver as tiras de ansiedade
Espalhadas pelo quintal de areia da experiência
Hei de ver. Ah! Como hei de ver.

Ontem

Se nunca é tarde
A manhã ainda está começando
Pra quem acorda cedo
E abre os olhos
Com disposição militar
As mudanças são como os dias
Divididos
Claro e escuro
Para a primeira parte,
O astro rei
Ilumina e queima
Enquanto ela,
Satélite
Encanta e engana
A mente com a beleza
Do reflexo.
O sono chega
E saio de mim
Feliz para a ilusão
De não repetir
Os mesmos olhos fechados de ontem

Daimon

Uma voz grita na cabeça
Brigando com a razão imposta
Espremida dos outros
Questionando o inquestionável
Dito costume

Arrebatar o êxtase complexo
Da ilusão sábia e da frágil vaidade
Parindo a verdade lógica
Na têmpora flácida
Dita catarse

Discernir o mundo a vista
Enxaguando a vida
Nas espirais do diálogo
E imortalizando a alma
Dito revelação

Aprender é descobrir-se de si
Vagar pela essência humana
Encontrando no pensar
Uma arma para o inimigo
E o daimon orgulhoso
Dita cicuta.

Comemorar?

Comemorar o quê?
Se o tempo passa
A vida fica pra trás
E o que temos pela frente
É só a certeza da luz no fim do túnel

Comemorar pra quê?
Se os amigos se vão
As lembranças ficam turvas
E ocupam mais espaço
Na memória e nos porta-retratos

Comemorar porquê?
Se a chuva ácida
Nos impede do banho
E de lavar os olhos
Deixando as lágrimas escorrerem pelo ralo.

Comemorar por comemorar.
Se o vento sopra os cabelos escassos
Balançando os braços retorcidos de fadiga
E demoram a refrescar a raiz do córtex
Relaxando a luta constante pelo novo.

Novaidade
Se o sol e o ponteiro
A pedra e o espelho
Refletem o grisalho e as rugas
De uma existência curta
E sem sentido.

Comemorar?

Hospício de Cegos

Um exercício doloroso de paciência
É estar no hospício de cegos
Enquanto o mundo lá fora vê a realidade
A miopia e o arcaico desequilibram a balança
Sobre a lâmina à beira do rio de Dante
Onde cabeças flutuam sem plasma
E o leme, conduzido pelo tato antigo
Desperdiça os ventos sem um rumo
Esquecendo de içar as velas do talento
Olhando para o umbigorgulho
E subestimando a inteligência de quem tem
Em detrimento da de quem manda.
A melhor saída é deixar precisar
E faltar, ignorar, fingir e fazer mal feito.
Fingir como hipócrita satisfeito
Um sorriso disfarçado de homem de respeito
Para fugir da palavra que diz
Sem imprimir, sequer, a primeira letra.
A insanidade escurece a visão
E a cegueira, os deixam loucos.

Pedaço

Ainda há muita coisa guardada ali.
Naquele pedaço de chão e teto concreto.

Muitas vezes igual, igualmente igual.
Igual sempre nas diferenças mal resolvidas esquecidas.

Sempre acreditando na paz divulgada.
Dita por mim, que não conseguia senti-la menti-la.

Nunca acertou tanto.
(Que foi sendo)
Jamais conheceu rotina.
Mesmice brigou diferente.
Agora virou ontem.
Hoje acabou.
Só amanhã.

Universo

Coleciono universos
Uno
Verso
Reverso
Uno verso
Sem conversa
Verso mudo
Arremesso
Vejo verso voando
Virando, revirando verbos
Visões, videntes
Versículos virgens
Viajam por vias ilusórias
Vultos e vogais dispersas
Unem versos
Vida é velocidade inversa
De vastos volumes
Vazios e cheios de vãos
Que vem e vai ao papel.
Como vibrações bifurcadas
E transformadas em veias
Do ventre vetor
Expondo vermes verídicos
E versões vetadas
O vexame, o véu, a vulva, o viés.
O vício viçoso
Vide o vidro que insiste em ser transparente e visionário.
Une versos
E verás
Que infinito é.

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